Seg, 03 de Dezembro de 2012 13:06
Muito
do que se imagina sobre as conquistas da luta antirracista nos Estados
Unidos não passa de um mito. A opinião é da norte-americana Kimberlé
Crenshaw, professora de direitos civis das universidades de Columbia e
da Califórnia em Los Angeles (Ucla). Ao lado do também norte-americano
Luke Charles Harris, professor de ciências políticas do Vassar College,
e da brasileira Jurema Werneck, presidenta da ONG Criola, a militante
participou do Seminário “Ações Afirmativas para a Promoção da Igualdade
Racial”, promovido pelo Instituto Ethos em São Paulo.
Uma
das principais lideranças da teoria crítica do racismo, que examina as
questões de poder na estrutura social dos EUA e as causas do racismo,
Kimberlé mostra que, apesar de muitos avanços nas questões raciais, é
nítido que a sociedade norte-americana não vive a era do pós-racismo.
A
distância entre os salários de negros e brancos é a primeira evidência
de que a luta por direitos iguais precisa continuar. “Os
afro-americanos ganham 65 % do salário dos brancos no país. A diferença
acontece até entre profissionais que desempenham a mesma função”, diz
ela. “Médicos e advogados brancos ganham mais do que médicos e advogados
negros.”
Essa
diferença na remuneração aumentou no período pós-crise econômica de
2008. A falta de acesso aos locais onde o dinheiro circula e onde
surgem as boas oportunidades de trabalho e de educação é um dos grandes
fatores que levam à desigualdade. “Isso impede que uma massa de pessoas
tenha acesso a determinados empregos. Não é só o salário do negro que
determina sua situação, mas suas possibilidades de atuação.”
Para
ela, um dos maiores desafios da sociedade hoje é aceitar que o racismo
persiste. “As pessoas têm dificuldade em acreditar que são racistas”,
diz. “Isso se deve muito à mídia, que insiste em dizer que tais
problemas estão relacionados a questões de diferenças salariais.”
Em
relação ao setor empresarial, os EUA têm muito a ensinar ao Brasil.
Atualmente, 72% das 500 empresas mais ricas norte-americanas têm pelo
menos uma política de inclusão racial. Entre as 60 primeiras da lista,
92% adotam iniciativas para favorecer a inclusão de negros no seu
quadro funcional. Esses avanços são resultado de políticas de governo
que nasceram durante a administração de John F. Kennedy (1961-1963).
Para incentivar a equidade dentro das empresas, o então presidente criou
uma série de incentivos para companhias que contratavam
afro-americanos, como isenção em taxas e impostos e inúmeras vantagens
nas licitações governamentais. Tais políticas foram seguidas pelo
sucessor de Kennedy, Lyndon B. Johnson (1963-1969), e pelo republicano
Richard Nixon, que levou a ideia da inclusão racial para as instituições
do mercado financeiro.
Com
essas ações do governo, foi possível aumentar em 35% o salário dos
negros e em 46% o número de trabalhadores negros em posição de chefia. O
bom desempenho financeiro das empresas que adotam políticas de
inclusão racial demonstra que a diversidade deixa a companhia mais
eficiente e preparada para competir globalmente.
Essas
informações foram apresentadas durante a mesa que discutiu o tema “A
Questão Racial no Brasil e nos EUA – uma Análise Comparada para a
Superação de Mitos”. Kimberlé Crenshaw, participante da mesa, é também
fundadora do Fórum de Política Afro-Americana, um instituto dedicado à
questão racial, justiça, gênero e direitos humanos. Nos anos 1990, morou
no Brasil por um ano e participou de vários momentos do movimento
negro no país.
Depois
de sua participação no seminário, a professora conversou com o
Instituto Ethos sobre os principais avanços do movimento no Brasil e
nos EUA. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
Instituto Ethos: Como a senhora enxerga os avanços do movimento negro no Brasil?
Kimberlé
Crenshaw: Venho para o Brasil desde 1994 e cheguei a viver no país
durante um ano. Lembro-me de que as conversas sobre a questão racial
ainda giravam em torno de como fazer a coisa acontecer. Participei de
conferências e encontros com acadêmicos e advogados sobre o tema.
Naquela época, as dúvidas eram como começar o movimento, como levar esse
conhecimento para a sociedade e quais estratégias deveriam ser usadas
para enfrentar os problemas do racismo. Era preciso fazer com que a
sociedade enxergasse que era racista. Hoje observamos que houve avanços.
Há programas de cotas nas universidades, a sociedade entende a questão
de forma mais ampla e o movimento passou para outros países da América
Latina.
IE: Como a senhora vê a atuação das empresas brasileiras em comparação com as norte-americanas?
KC:
Seria difícil falar diretamente das empresas brasileiras, mas talvez o
Brasil possa aprender com o que aconteceu nos EUA. Uma coisa é certa:
as empresas costumam responder a incentivos governamentais e a medidas
que moldam os negócios. Algumas estão mais atentas a essa conversa e
entendem que a valorização da diversidade pode beneficiar não apenas os
negros diretamente, mas toda a sociedade em geral. As pessoas falam
muito que o Brasil está na posição de líder mundial, pois é dono de
alguns dos maiores recursos naturais do planeta. No entanto, as pessoas
são os maiores recursos que um país pode ter. E o maior recurso do
Brasil é a sua população. É preciso dar oportunidade para que todas
essas pessoas possam contribuir, deixar que os negros, por exemplo,
mostrem seus talentos. É preciso fazer a mudança para uma sociedade mais
integrada e saber lidar com as divisões sociais para incluir a
população marginalizada.
IE: Como isso aconteceu nos EUA?
KC:
Nos EUA, cada setor atuou à sua maneira. O setor de construção civil,
por exemplo, era muito lucrativo, mas composto por pessoas brancas,
pois durante anos funcionou em torno de um network com as mesmas
pessoas. É preciso identificar quais são os erros para depois ver onde
estão as oportunidades para mudança. O governo nos EUA teve um papel
fundamental e muito significativo quando encorajou as empresas a
abrirem a cabeça sobre a questão racial. É sempre um projeto de risco
mudar a forma de fazer negócios. Empresas têm seus compromissos com o
botton line, mas, como o governo é sempre um dos atores mais
importantes do mercado para cada setor, seus estímulos são
fundamentais. Quando o governo cria incentivos para que as empresas
tenham acesso a mercados que antes não alcançavam, a mudança vem.
IE: Que tipos de benefício foram criados?
KC:
Esses incentivos começaram nos anos 1960, com o Ato Permanente de
Kennedy. Eles aparecem nos contratos. Por exemplo, empresas com
políticas de inclusão de minorias ganham vantagens nos processos de
licitação do governo. Pois é claro que, para uma empresa de porte menor,
fazer ações afirmativas pode significar custos. Mas, se isso lhe der
acesso a mercados que até então não atingia, claro que se torna
interessante para seu negócio. A partir disso, as empresas precisaram
mudar as formas de recrutar seus funcionários, de procurar as pessoas,
pois, se não faziam o que estava no contrato, levavam multas.
IE: Isso significa que os avanços partiram do governo?
KC:
Sim. Existe uma crença de que apenas o movimento civil conseguiu mudar
a sociedade norte-americana. Mas isso não é verdade. A mudança nos EUA
acontece num momento de confluência entre sociedade, administração,
Congresso e Corte. Teve um momento, em que todos tiveram essa percepção.
Éramos uma sociedade democrática, mas, de fato, não estávamos
parecendo com isso. Era preciso olhar essas diferenças. Mas cada
instituição deve fazer seu papel para haver integração. Hoje temos um
presidente negro, Barack Obama, e certamente as coisas podem ficar mais
fáceis, mas ainda não estamos onde deveríamos estar.
IE: A senhora fala muito em diversidade e competição global. De que forma esses conceitos estão relacionados?
KC:
Acredito que uma força de trabalho homogênea não seja rentável para
uma empresa. Ninguém vai conseguir atingir o mercado e clientes com uma
estratégia monocromática. As empresas precisam ter diferentes
perspectivas e formas de pensar em novos negócios. Uma empresa paroquial
não consegue entrar num mercado global que é completamente diverso
hoje. E as empresas perceberam que há vantagem competitiva em incorporar
uma visão multicultural que reflita nos produtos e na imagem.
IE:A senhora acredita que as conquistas raciais nos EUA estão estagnadas?
KC:
Esse movimento não é linear, não vai sempre para a frente. Em algumas
áreas, depois da queda da economia, muitos negros voltaram à situação
de 1984. Vinte anos de progresso e uma queda na economia fez com que o
movimento sofresse um retrocesso. Precisamos ter a habilidade constante
de ajustar nossas ferramentas de acordo com os acontecimentos
históricos. Em termos de justiça, saúde e educação, fizemos grandes
progressos desde 1954. Mas nem sempre as coisas funcionam o tempo todo.
Também é natural que, às vezes, o terceiro setor puxe as mudanças e
outras vezes o governo lidere. Temos de aceitar essas nuances. Todo
movimento tem suas fases de avanço e retrocesso. É preciso estar
vigilante em relação às nossas ferramentas, ao nosso discurso e às
circunstâncias sociais. Muita coisa avançou. Hoje temos um presidente
negro, o que está diretamente relacionado ao fato de o movimento negro
ter maior força política no país e poder usar os processos políticos com
maior representação.
Fonte: Instituto Ethos
Por: Giselle Paulino
Na foto (da esq. para a dir.): Jurema Werneck, Luke Charles Harris e Kimberlé Crenshaw.
Crédito: Clovis Fabiano
Disponível em: http://www.abpn.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2512%3Anao-somos-uma-sociedade-pos-racista-diz-kimberle-crenshaw&catid=120%3Aassunto1&lang=pt